Os bolinhos de chuva da Dona Maria | Nosso Amiguinho

Os bolinhos de chuva da Dona Maria

Choveu forte naquele dia. As calçadas e ruas asfaltadas ficaram limpinhas, mas a enxurrada arrastou tudo que foi encontrando pelo caminho, tapando os bueiros e acumulando o lixo fedorento no fim da rua sem saída, bem em frente à casa da Dona Maria, que ficou furiosa. E agora, para quem reclamar? Para a prefeitura? Mas não foi o prefeito que jogou o lixo!

Dona Maria foi de casa em casa perguntando de quem era a culpa. O vizinho do lado de cima da rua disse que não foi dele, e por sua vez jogou a responsabilidade nos moradores da casa em frente, que culparam o morador da esquina que havia deixado o lixo na calçada. Mas este acusou o cão vira-latas que fuçava sacos de lixo em busca de um ossinho. Um outro criticou a própria chuva! É… Ninguém jogou limpo, mesmo! Foi um jogo de empurra-empurra daqueles…

– Quem vai limpar toda esta sujeira? – perguntou Dona Maria.

Todo mundo ficou quietinho, quietinho.

Mas, antes de reclamar à prefeitura, à polícia, ao promotor público ou até mesmo ao líder comunitário, resolveu ela mesma limpar a frente de sua casa… Mais uma vez!

Já havia perdido a conta de quantas vezes fizera aquilo antes. Já estava bem cansada e precisava tomar uma atitude de uma por vez por todas!

Foi quando teve uma ideia. Uma medida que poderia garantir um futuro agradável para seu quarteirão! Caso desse certo acabaria para sempre com a sujeira na frente de sua casa e todos os moradores da quadra viveriam em harmonia.

Foi assim: Um dia bem cedinho, Dona Maria estava ouvindo uma emissora de rádio e o locutor passou a informar a previsão do tempo. A notícia não era das mais agradáveis. Dizia o radialista que mais um forte temporal atingiria a cidade logo mais à tarde. E agora?! Mais uma tempestade à vista? Mas, em vez de se esconder temendo inundação, a mulher criou coragem e foi para a rua convidando toda a vizinhança para uma bela festa em sua casa às três horas da tarde.

Na festa, tinha doce, refrigerante, refresco, bala, pipoca, pé-de-moleque e bolinho de chuva, é claro, a especialidade de Dona Maria. Tinha muita coisa gostosa, e tudo de graça! A criançada estava toda por lá, acompanhada de seus pais. Todos comiam e bebiam felizes, felizes, tagarelando sem parar… Não faltavam elogios para os quitutes da generosa vizinha.

De repente… Cabrummmmmmmmmm! Um raio seguido de um forte trovão deu início a uma grande tempestade que atingiu toda a cidade. O pé-d’água começou a inundar o bairro. Os convidados da festa, antes felizes com os comes e bebes, começaram a se preocupar.

– E agora, como vamos embora debaixo dessa chuvarada?! – perguntaram desesperados.

O jeito foi permanecer na pequenina e humilde casa da bondosa senhora até que a chuva passasse…

Depois de algumas horas, todos ficaram aliviados quando finalmente cessou o temporal.

– Ufa! Até que enfim! Agora podemos voltar para casa! – disseram em voz alta.

Mas havia um probleminha, jamais imaginado por eles. É que ninguém conseguiu sair pelo portão da casa. Sabe por quê? Mais uma vez, a enxurrada havia levado para frente da residência da pobre vizinha todo o lixo que encontrou pelas ruas e calçadas. Naquele monte de tranqueiras, havia de tudo: sacolinhas plásticas de lixo, pedaços de madeira, galhos de árvores, colchão velho, entulho de construção, papéis de balas e sorvetes, garrafas Pet e toda a sorte de lixo. Um ar fétido tomava conta do lugar.

Os vizinhos, que haviam acabado de lanchar, ficaram enojados e envergonhados por terem colocado o lixo indevidamente nas ruas, calçadas e terrenos baldios. Em vez de taparem o nariz por causa do forte odor, resolveram arregaçar as mangas e fizeram uma faxina na frente da casa da boa vizinha. Para isso, contaram com o apoio da prefeitura, que teve que mandar um caminhão para a remoção dos materiais…

A rua da sujeira ficou numa limpeza… E os vizinhos sujinhos ficaram bem limpinhos!

Desde aquele dia, a chuva só traz coisas boas para o bairro. Ela cai purificando o ar, deixando o meio ambiente bem mais agradável e livre de poluentes. E, com a estiagem, o cenário fica purificado e mais feliz ao som do cantar dos pássaros. E o único cheirinho no ar é dos deliciosos bolinhos de chuva da dona Maria. O cheirinho que sai de sua casa anuncia a todos os vizinhos que está na hora de comemorar mais um temporal sem enchentes… E mais uma lição de cidadania!